(Artigo publicado originalmente em “O Ponto Base” em 19 de Março de 2013)

Na semana passada, praticamente todas as publicações relacionadas ao mundo da economia e das finanças estampavam nas primeiras páginas a boa notícia: O Dow Jones Industrials, o índice acionário mais acompanhado do mundo, atingiu um novo recorde histórico. Festa.

O grande problema de avaliar informações sem aplicar os filtros corretos, é o de consumir meias verdades. E como diz o ditado, uma meia verdade, ainda é uma mentira inteira.

Como podemos ver no gráfico abaixo, desde o topo registrado no ano 2000, quando houve o estouro da bolha das pontocom, o Dow Jones nominal já havia atingido um novo recorde histórico em Outubro de 2007, e agora, o faz novamente.

Gráfico do índice Dow Jones nominal

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A meia verdade reside no fato de que a régua utilizada para tomar essa medida, vem encolhendo ao longo do tempo.

O Dow Jones é um índice cuja pontuação reflete a variação de preços das 30 ações que o compõem, e esses preços, são cotados em dólares americanos. E ninguém precisa ser um grande conhecedor da Escola Austríaca para saber que o valor do dólar vem sendo fortemente depreciado pela política de expansão monetária sem precedentes implementada pelo Federal Reserve, especialmente nas últimas décadas.

Assim, observar o gráfico acima e tomá-lo como medida da realidade, equivale a medir uma distância qualquer com uma régua que encolhe a cada dia. Um método um tanto duvidoso, pra dizer o mínimo.

Investidores mais experientes sabem que, para oferecer resultados mais próximos da realidade, os gráficos precisam ser deflacionados, de modo que retiremos deles os efeitos da desvalorização monetária. Curioso como isso é sistematicamente esquecido/ignorado pela grande imprensa “especializada” na hora de preparar suas manchetes.

De um modo geral, investidores costumam deflacionar os gráficos utilizando índices oficiais de inflação. Isso já traz uma nova perspectiva, mas, para aqueles que sabem quão confiáveis são esses índices, o problema persiste. Como obter um resultado mais real, se vamos utilizar um índice cuja confiabilidade também é duvidosa?

Para os Austríacos, a charada tem fácil solução. Qual é o único instrumento monetário que não pode ser inflacionado pelos Bancos Centrais? Qual é essa moeda que há séculos vem sendo utilizada e aceita por todos os povos do mundo? Se você demorou para responder OURO, volte quatro casas e fique uma rodada sem jogar.

O ouro, ainda que também esteja sujeito à pressões externas, é a melhor medida de valor de que dispomos. A título de exemplo, no início do Século XX, uma onça de ouro era capaz de comprar um terno de qualidade razoável, ou uma cabeça de gado de boa qualidade. Hoje, mais de cem anos depois, e com o dólar tendo perdido mais de 95% de seu valor original desde 1913, a mesma onça de ouro ainda tem o mesmo poder de compra. Isso sim é “sound money”.

Assim, temos que deflacionar o gráfico do Dow Jones pelo preço da onça de ouro spot em Nova York, para podermos nos aproximar mais da realidade, ou seja dos valores reais do índice.

Vejamos.

Gráfico do índice Dow Jones deflacionado pelo ouro

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Hmm…

Observando o gráfico acima, deflacionado pelo ouro, percebemos que o Dow Jones não só não registrou NENHUM novo recorde histórico de pontuação em valores reais (nem em 2007, e nem agora), como segue registrando topos e fundos cada vez mais baixos.

A tradução é simples: A meia verdade é uma baita mentira. Em termos reais, os investidores passivos no índice continuam sendo separados de sua riqueza, desde 1999, ano em que o último recorde histórico ocorreu.

A lição que fica é a de que qualquer medição tem pouco valor, e pode levar à interpretações equivocadas, com consequências mais que danosas, se a régua utilizada não for confiável.

Investidores, cuidado com a “ilusão nominal”. Ela pode nos fazer acreditar que estamos enriquecendo quando, na verdade, o que está ocorrendo é exatamente o oposto.

E você, em que régua confia?

“In gold we trust.”

Forte abraço.